"Longe é um lugar perto que se chega com paciência."
(Fábio Ibrahim El Khoury)

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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Osho - O Segundo Nascimento




O Segundo Nascimento - Osho


"O chamado mundo louco só lhe faz promessas, mas os benefícios nunca são distribuídos. As pessoas morrem neste mundo após toda uma vida de simples desespero e angústia. Se você quiser viver no êxtase e morrer no êxtase, terá que escolher o caminho da solidão. E esse é também o caminho da meditação, porque sua solidão absoluta está sempre no seu interior.

Fora, você sempre vai encontrar uma multidão - em qualquer caminho. Você pode ter escolhido um caminho que parece ser silencioso, sem trânsito, mas mais adiante você não sabe. Em todo caminho encontrará alguma multidão. Às vezes uma multidão maior, às vezes uma multidão menor, mas você as encontrará.
Só há um caminho que vai para dentro, onde você não vai encontrar um único ser humano, onde vai encontrar apenas silêncio e paz. Então você vai se encontrar, e depois disso nem você estará mais lá.

A solidão torna-se tão pesada e densa que você não consegue ficar ali, não consegue ter um "eu", um "ego" uma sensação de separação da existência. Seu "eu" não é nada além de uma sensação de separação. E quando você se vê unido à existência, nenhum conhecimento é necessário. 
Em sua inocência, você conhecerá tudo que é grande, tudo o que é belo, tudo o que é verdade. Mas não será uma repetição de qualquer escritura e não será nada emprestado. Será verdadeiramente seu, terá sua assinatura.

E esta é uma das maiores bênçãos na vida: ter uma experiência que seja absolutamente sua, e não uma cópia. Só aquilo que é absolutamente novo, original, surgido das verdadeiras fontes do seu ser, pode lhe dar satisfações, preenchimento, contentamento e uma profunda compreensão de todos os mistérios da vida e da existência.

É bom começar com a inocência, mas lembre-se de que há dois tipos de inocência: uma é a inocência da criança e a outra é a do meditador.
O meditador também se torna uma criança, mas isso ocorre em um nível muito diferente, em uma altura muito elevada - como se a criança estivesse no vale, e o homem iluminado, que de novo se tornou uma criança, estivesse no pico iluminado pelo sol. A distância é enorme. Mas há certa similaridade, um fio que vai da criança ao coração do sábio. A criança não consegue entender o sábio, mas o sábio consegue entender a criança. Lembre-se sempre disso como regra fundamental: o inferior não consegue entender o superior, mas o superior consegue entender o inferior.

E na sua vida, se algo puder ser comparado com esse alto pico, é sua infância. Tente redescobri-la. Não a encubra com conhecimento a ponto de esquecê-la. Remova todo o conhecimento para que possa redescobrir sua inocência. Quando você remover seu conhecimento, estará removendo sua própria mente, porque sua mente é um nome coletivo para seu conhecimento. Não é qualquer entidade - como chamamos estas árvores aqui em volta de "o jardim", mas o jardim é apenas um nome coletivo. Se você continuar procurando o jardim não o encontrará; você sempre encontrará árvores individuais, roseiras, flores sazonais, mas não encontrará o jardim como tal em parte alguma.

Lembre-se de que muitas vezes nos sentimos perdidos com nomes coletivos. Começamos a pensar que esses nomes coletivos são realidades; eles não são. A sociedade não existe. (...) O que existe são indivíduos.

A mente, não existe, ela é apenas um nome coletivo para todo o seu conhecimento. Remova pouco a pouco tudo o que você sabe, e quando tudo o que você sabe tiver sido removido, você não encontrará nenhuma mente ali, nem mesmo o contêiner em que todo aquele conhecimento estava contido. (...) 
Sendo puramente inocente, centrado em si mesmo, sabendo que a vida é um mistério e que não há nada a saber, que o conhecimento, por sua própria natureza, é impossível, somos envolvidos pelo miraculoso. E é belo que sejamos envolvidos pelo miraculoso, porque isso torna a vida uma excitação contínua, um êxtase.

Você nunca se cansa de descobrir novos espaços dentro de você. Você nunca fica entediado, porque há sempre algo novo à medida que você penetra mais profundamente dentro de você. E quanto mais profundamente você se move para dentro de si, mais se move em direção à própria existência, por que no fundo você está enraizado na existência. Se a árvore se move profundamente para dentro de suas raízes, ela encontrará a terra. (...)

Se nos movermos em direção ao nosso centro... Você ficará surpreso em saber que nosso centro também tem suas raízes na existência, embora elas não sejam raízes visíveis. Nossa consciência é parecida com o ar. 
Ela não é visível, mas você consegue senti-la. Você consegue sentir quando o ar é frio e consegue sentir quando o ar é quente. Você consegue sentir sua consciência de muitas maneiras; quando ela é pura, é fria; quando é impura, é quente. Impura com a ambição, impura com desejos, impura com objetivos - então ela é quente, você não se sente à vontade, não há paz interior. Mas quando todos esses desejos o deixam, há um enorme frescor que continua crescendo.

E quando você se aproxima de si mesmo, está se aproximando do universo. E o maior momento na sua vida é quando você aceita o mistério da existência como ele é, sem fazer nenhum questionamento. Você entendeu uma coisa: que a existência é misteriosa e vai permanecer misteriosa. Não há necessidade de nenhum conhecimento. Isso significa que você se ajustou com o universo como algo misterioso e se ajustou consigo mesmo com sua inocência.

Este é o segundo nascimento. Na Índia chamamos este estado de dwij, o segundo nascimento. E esta é sua busca aqui."


Osho em Inocência, conhecimento e encantamento 


Platão - Metafísica




"A coisa mais indispensável a um homem é reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento."
Platão





1. - A METAFÍSICA DE PLATÃO 
O que preocupa Platão é a questão à respeito do ser e do não-ser, e sua metafísica busca a solução para tornar compatível o uno e o múltiplo.
Simbolicamente, para Platão, a primeira navegação era o percurso da filosofia sob o impulso do vento da filosofia naturalista, e a segunda navegação era aquela realizada por força própria em busca de uma realidade suprassensível, ou seja, do ser inteligível.
Na primeira navegação o filósofo permanece no mundo dos sentidos, e na segunda navegação existe a libertação deste mundo, atingindo o mundo das ideias.
Qualidade, cores, figuras, etc., para Platão não são as verdadeiras causas de algo, mas sim com causas. Para construir verdadeira causa, é necessário ser algo inteligível, ou seja, ideia, a forma pura do Belo, sendo que qualquer coisa física supõe uma causa suprema e última de caráter metafísico.
Dessa forma, pela segunda navegação, Platão mostra a existência de dois planos do ser, um fenomênico, sensível; e outro metafenomênico, só captável com a mente. Após essa segunda navegação, pode-se falar de material, imaterial, sensível e suprassensível, empírico e metaempírico, físico e suprafísico; criando assim o mundo das ideias.


2. - O SER DAS IDEIAS 
Hoje em dia, o termo ideia nos remete à forma, natureza constitutiva, figura, aspecto, aparência, tipo, espécie, aquilo que se vê. Porém, antes de Platão, esse termo significava aquilo que se vê, propriedade característica, ou tipo.
Para Platão, o verdadeiro conhecimento (epistéme) é possível, dada a natureza mutável dos fenômenos sensíveis, pois só será possível se houver realidade estável, eterna para além do meramente sensível.
As ideias platônicas existem por si mesmas, estão na base da própria realidade e são modelos perfeitos inseridos na natureza das coisas. São conheci das numa pluralidade de métodos, pela faculdade da razão.
A relação entre ideias eternas e fenômenos sensíveis, é descrita de várias formas, e o universo visível que estamos é uma cópia do universo inteligível que abrange as ideias, e o tempo por sua, é uma imagem da eternidade.
Para Sócrates e Platão, a verdadeira causalidade opera sempre com um fim, e a razão vence a necessidade física.
Para Platão, a palavra ideia (eide) possui três sentidos: a) forma, que significa permanência; b) princípios de unificação das coisas sensíveis; c) fundamento do Ser e princípio de todo saber, ou seja, plenitude da existência.


3. - DEMONSTRAÇÃO DO MUNDO DAS IDEIAS
De acordo com o texto Fédon 79¹¹, Platão afirma que a alma, por ser imutável, conserva sempre sua identidade. Mesmo com tantas mudanças no corpo, nós nunca deixamos de ser os mesmos, pois o que mantém a identidade é a própria alma.


4. - AS IDEIAS E AS COISAS SENSÍVEIS
As ideias podem representar princípios de unificação das coisas sensíveis.
A ideia é primeiramente unidade, reunião indissolúvel e, além disso, ela confere existência real, ou seja, são as essências existentes das coisas do mundo sensível que possuem sua Ideia-Forma (unidade indestrutível, imutável, eterna) no mundo inteligível. 
Um objeto só é em virtude da Ideia-Forma que o define (paradigma). Porém, o que atrai não é um arquétipo de algo belo, por exemplo, mas a beleza concreta deste algo, pois se algo é belo, é porque participa da Forma absoluta da beleza. O mesmo vale para a distinção entre bem e bom, assim como para ser junto é preciso saber o que é justiça, e para ser virtuoso é preciso saber o que é virtude.

Osho - Autoconhecimento




Você só é responsável pelo seu autoconhecimento

Você tem de ser um investigador. E a sua única responsabilidade deve ser conhecer a si mesmo.

Ensinaram-lhe tantas responsabilidades menos essa! Disseram-lhe que você devia prestar conta aos seus pais, à sua mulher, ao seu marido, aos seus filhos, à nação, à igreja, à humanidade, à Deus. A lista é praticamente interminável. Mas a responsabilidade mais importante não está nessa lista.

Eu gostaria de queimar essa lista toda! Você não tem de prestar contas a nação nenhuma, a igreja nenhuma, a Deus nenhum. Você só é responsável por uma coisa: o seu autoconhecimento. E o maior milagre é que, se você cumprir com essa responsabilidade, conseguirá cumprir com muitas outras sem fazer nenhum esforço.

No momento em que você encontra o seu próprio ser, uma revolução acontece na maneira como você vê as coisas. Toda a sua visão de vida passa por uma mudança radical. Você começa a se dar conta de novas responsabilidades - não como se fossem algo que tem de ser feito, mas algo que se faz por prazer.

Você nunca mais fará nada por dever, por se sentir responsável, porque isso é algo que esperam de você. Você fará tudo pela felicidade que isso lhe dá, por um sentimento de amor e compaixão. Não é uma questão de dever, é uma questão de compartilhar. Você sente tanto amor e tanta felicidade que gostaria de compartilhar.

Por isso eu só ensino uma responsabilidade, que é para consigo mesmo. Todo o resto virá naturalmente sem nenhum esforço da sua parte. E, quando as coisas acontecem sem que seja preciso fazer esforço, elas se revestem de uma grande beleza.


Osho, em "O Livro da Sua Vida"

Krishnamurti - Reflexões 3




Encontrar o sofrimento

Como você encontra o sofrimento? Receio que a maioria de nós o encontre muito superficialmente. Nossa educação, nosso treinamento, nosso conhecimento, as influências sociológicas a que estamos expostos, tudo nos torna superficiais. Uma mente superficial é a que foge para a igreja, para alguma conclusão, algum conceito, alguma crença ou ideia. Todos esses são refúgios para a mente superficial que está em sofrimento. E se você não pode encontrar um refúgio, constrói um muro em torno de si e se torna cínico, duro, indiferente, ou você foge através de alguma reação fácil, neurótica. Todas essas defesas contra o sofrimento impedem mais investigação.or favor, olhe para sua própria mente; observe como você explica satisfatoriamente seus sofrimentos, se perde no trabalho, em ideias, ou se agarra numa crença em Deus, ou numa vida futura. E se nenhuma explicação, nenhuma crença foi satisfatória, você foge através da bebida, do sexo, ou se tornando cínico, duro, amargo, frágil. Geração após geração isto vem sendo passado pelos pais a seus filhos, e a mente superficial nunca tira a bandagem dessa ferida; ela realmente não sabe, não está realmente inteirada do sofrimento. Ela tem simplesmente uma ideia sobre o sofrimento. Tem um quadro, um símbolo do sofrimento, mas nunca encontrou o sofrimento; ela encontra apenas a palavra sofrimento.



O sofrimento é essencial?

Existem muitas variedades, complicações e graus de sofrimento. Todos nós sabemos disso. Você sabe disso muito bem, e nós carregamos este fardo pela vida, praticamente do momento em que nascemos até o momento em que vamos para o túmulo. Se dissermos que isto é inevitável, então não há resposta; se você aceita isto, então parou de investigar. Fechou a porta para mais investigação; se você foge disto, também fechou a porta. Você pode fugir para um homem ou mulher, para a bebida, distrações, várias formas de poder, posição, prestígio ou para o tagarelar interno sobre nada. Então suas fugas se tornam importantíssimas; os objetos para onde você voa assumem colossal importância. Assim, você fechou a porta do sofrimento também, e é isso que a maioria de nós faz. Ora, podemos nós interromper todo tipo de fuga e voltar para o sofrimento? Isso significa não buscar uma solução para o sofrimento. Existe sofrimento físico – dor de dente, dor de estômago, uma operação, acidentes, várias formas de sofrimento físico que têm sua própria resposta. Também existe o medo da dor futura, que poderia causar sofrimento. O sofrimento está intimamente relacionado com o medo, e sem a compreensão destes dois fatores principais na vida, nunca compreenderemos o que é ser compassivo, amar. Então uma mente interessada na compreensão do que é compaixão, amor e todo o resto, deve certamente compreender o que é medo e o que é sofrimento.



Felicidade não é sensação

A mente não pode encontrar a felicidade. A felicidade não é uma coisa a ser perseguida e encontrada, como a sensação. A sensação pode ser encontrada vezes e mais vezes, porque está sempre sendo perdida; mas a felicidade não pode ser encontrada. A felicidade relembrada é só uma sensação, uma reação a favor ou contra o presente. O que está acabado não é felicidade; a experiência de felicidade que está acabada é sensação, pois lembrança é o passado e o passado é sensação. Felicidade não é sensação. O que você conhece é o passado, não o presente; e o passado é sensação, reação, memória. Você lembra que foi feliz; e pode o passado dizer o que é felicidade? Ele pode lembrar, mas não pode ser. Reconhecimento não é felicidade; saber o que é ser feliz, não é felicidade. Reconhecimento é a resposta da memória; e pode a mente - o complexo de memórias, experiências - ser feliz? O próprio reconhecimento impede o experimentar. Quando você está cônscio de que está feliz, existe felicidade? Quando há felicidade, você está cônscio dela? A consciência só surge com o conflito; o conflito da lembrança do mais. Felicidade não é a lembrança do mais. Onde existe conflito, a felicidade não está. Conflito é onde a mente está. O pensamento, em todos os níveis, é a resposta da memória e assim, invariavelmente, nasce o conflito. Pensamento é sensação, e sensação não é felicidade. As sensações estão sempre buscando gratificações. O fim é sensação, mas a felicidade não está no fim; ela não pode ser buscada.



A fuga final

O que você quer dizer com problema de sexo? É o ato, ou é um pensamento a respeito do ato? Certamente, não é o ato. O ato sexual não é problema para você mais do que o comer é um problema para você, mas se você pensa em comer ou em qualquer outra coisa o dia inteiro porque não tem mais nada para pensar, isto se torna um problema para você. Por que você constrói isto, o que você está obviamente fazendo? Os cinemas, as revistas, as histórias, o modo como as mulheres se vestem, tudo está formando seus pensamentos, por que a mente de fato pensa em sexo? Por que, senhores e senhoras? É seu problema. Por quê? Por que isto se tornou um assunto central na vida de vocês? Quando existem tantas coisas chamando, exigindo sua atenção, você dá atenção completa ao pensamento sobre sexo. O que acontece, por que suas mentes estão tão ocupadas com isto? Porque esse é um caminho de fuga final, não é? É uma forma de completo esquecimento de si mesmo. Por um tempo, ao menos naquele momento, você pode se esquecer de si mesmo e não existe outro modo de esquecer-se de si mesmo. Tudo o mais que você faz dá ênfase ao “eu”, ao ego. Seu negócio, sua religião, seus deuses, seus líderes, suas ações políticas e econômicas, sua adesão a um partido e a negação do outro, tudo isso enfatiza e reforça o “eu”. Quando existe uma única coisa em sua vida que é uma avenida para a última fuga, para o completo esquecimento de você mesmo só durante poucos segundos, você se prende a isto porque esse é o único momento em que você está feliz.


Krishnamurti, J. Krishnamurti, The Book of Life (O livro da vida)

Krishnamurti - Reflexões 2





O intelecto não vai resolver nossos problemas

A maioria de nós é muito indiferente a este extraordinário universo a nossa volta; nós nunca vemos o ondular da folha ao vento; não vemos a folha de grama, a tocamos com nossa mão e conhecemos a qualidade de seu ser. Isto não é apenas ser poético, assim não vá para um estado especulativo, emocional. Digo que é essencial ter esse sentimento profundo pela vida e não ficar preso em ramificações intelectuais, discussões, passar em exames, citar e deixar alguma coisa de lado dizendo que aquilo já foi dito. O intelecto não é o caminho. O intelecto não resolverá nossos problemas; o intelecto não nos concederá essa nutrição que é inextinguível. O intelecto pode raciocinar, discutir, analisar, chegar a uma conclusão por inferências e assim por diante, mas o intelecto é limitado, pois o intelecto é resultado de nosso condicionamento. Mas a sensibilidade não é. A sensibilidade não tem condicionamento; ela tira você direto do campo dos medos e angústias. Nós gastamos nossos dias e anos cultivando o intelecto, argumentando, discutindo, brigando, lutando para ser alguma coisa e assim por diante. E contudo, este extraordinariamente belo mundo, esta terra que é tão rica - não a terra de Bombaim, a terra Punjab, a terra russa ou a terra americana - esta terra é nossa, sua e minha, e isso não é bobagem sentimental; isto é um fato. Mas infelizmente nós a dividimos por nossa insignificância, nosso provincianismo. E sabemos por que o fizemos, para nossa segurança, por melhores e mais empregos. Esse é o jogo político que está sendo jogado mundo afora, e assim esquecemos de ser seres humanos, de viver felizmente nesta terra que é nossa, de fazer alguma coisa por ela.



Encare o fato

Estou sofrendo. Psicologicamente, estou terrivelmente perturbado; e tenho uma ideia sobre isto: o que devo fazer, o que não devo fazer, como isto deve ser mudado. Essa ideia, essa fórmula, esse conceito me impede de olhar o fato como ele é. Ideação e fórmula são fugas de o que é. Há ação imediata quando há grande perigo. Então você não tem ideia. Você não formula uma ideia e age segundo essa ideia.A mente se tornou preguiçosa, indolente através de uma fórmula que deu a ela meios de fugir da ação em relação ao que é. Vendo por nós mesmos toda a estrutura do que foi dito, não porque isto nos foi apontado, é possível encarar o fato: o fato de que somos violentos, por exemplo? Somos seres humanos violentos, e escolhemos um modo de vida violento – guerra e todo o resto. Embora falemos sem parar, especialmente no oriente, de não-violência não somos pessoas não-violentas. A ideia da não-violência é uma ideia, que pode ser usada politicamente. Esse é um significado diferente, mas é uma ideia, e não um fato. Porque o ser humano é incapaz de encarar o fato da violência, ele inventou o ideal da não-violência, o que o impede de lidar com o fato.Afinal, o fato é que sou violento; sou irado. Qual é a necessidade de uma ideia? Não é a ideia de ser irado; o importante é o fato de ser irado, como o estado real de estar faminto. Não existe a ideia de estar faminto. A ideia vem em relação ao que você vai comer, e de acordo com o ditame de seu prazer, você come. Só existe ação em relação ao que é quando não existe ideia sobre o que devia ser feito em relação ao que você é confrontado, que é o que é.



Liberdade do que é

Ser virtuoso advém da compreensão de o que é, ao passo que se tornar virtuoso é adiamento, encobrir o que é com o que você gostaria de ser. Assim, se tornando virtuoso você evita a ação diretamente no que é. Este processo de evitar o que é através do cultivo de um ideal é considerado virtuoso, mas se você olhar de perto e diretamente verá que não é nada disso. É meramente um adiamento de ficar frente a frente com o que é. Virtude não é o se tornar aquilo que não é; virtude é a compreensão do que é e, portanto, a liberdade de o que é. A virtude é essencial na sociedade que está rapidamente se desintegrando.



A realidade está no que é

Em vez de perguntar quem compreendeu ou o que é Deus, por que não dar toda sua atenção e vigilância para o que é? Então você descobrirá o desconhecido, ou melhor, ele chegará a você. Se você compreender o que é o conhecido, experimentará esse extraordinário silêncio que não é induzido, nem forçado, esse vazio criativo onde só a realidade pode entrar. Ela não pode chegar naquilo que está se tornando, que está lutando; só pode chegar para aquilo que é, que compreende o que é. Então você verá que a realidade não está na distância; o desconhecido não fica lá longe; está no que é. Como a resposta para um problema está no problema, também a realidade está no que é; se pudermos compreender isto, então conheceremos a realidade.


Krishnamurti, J. Krishnamurti, The Book of Life (O livro da vida)

Krishnamurti - Reflexões 1





O Lampejo de Compreensão

Eu não sei se você notou que há compreensão quando a mente está muito quieta, mesmo por um segundo; há o lampejo da compreensão quando a verbalização do pensamento não existe. Apenas experimente isto e verá por si mesmo que você tem o lampejo da compreensão, essa extraordinária rapidez do insight, quando a mente está muito imóvel, quando o pensamento está ausente, quando a mente não está oprimida por seu próprio ruído. Então, a compreensão de qualquer coisa - de um quadro moderno, de uma criança, de sua esposa, seu vizinho, ou a compreensão da verdade, que está em todas as coisas - só pode chegar quando a mente está muito imóvel. Mas tal imobilidade não pode ser cultivada porque se você cultiva uma mente imóvel, não é uma mente imóvel, é uma mente morta. Quanto mais você está interessado em alguma coisa, quanto mais sua intenção de compreender, mais simples, clara, livre está a mente. Então a verbalização cessa. Afinal, pensamento é palavra, e é a palavra que interfere. É a tela das palavras, que é memória, que intervém entre o desafio e a resposta. É a palavra que está respondendo ao desafio, o que chamamos de intelecção. Então, a mente que fica tagarelando, que fica verbalizando, não pode compreender a verdade - verdade na relação, não uma verdade abstrata. Não existe verdade abstrata. Mas a verdade é muito sutil. Como um ladrão na noite, ela chega obscuramente, não quando você está preparado para recebê-la. 



O intelecto corrompe o sentimento

Você sabe, existe o intelecto, e existe o puro sentimento - o puro sentimento de amar alguma coisa, de ter grandes, generosas emoções. O intelecto raciocina, calcula, pesa, compara. Ele pergunta, "Isto vale a pena? Vai me beneficiar?" Por outro lado, existe sentimento puro, o extraordinário sentimento pelo céu, por seu vizinho, sua esposa ou marido, por seu filho, pelo mundo, pela beleza de uma árvore e assim por diante. Quando estes dois chegam juntos, há a morte. Compreende? Quando o sentimento puro é corrompido pelo intelecto, há mediocridade. É isso que a maioria de nós faz. Nossas vidas são medíocres porque estamos sempre calculando, nos perguntando se vale a pena, que proveito terei, não só no mundo do dinheiro, mas também no dito mundo espiritual: "Se eu fizer isto, conseguirei aquilo?" 



Todo pensamento é distração

Uma mente que é competitiva, presa no conflito de vir a ser, pensando em termos de comparação, não é capaz de descobrir o real. Pensamento-sentimento que é intensamente vigilante está no processo de constante autodescoberta - em que a descoberta, sendo verdadeira, é libertadora e criativa. Tal autodescoberta gera liberdade da ganância e da complexa vida do intelecto. É esta complexa vida do intelecto que encontra gratificação no hábito: curiosidade destrutiva, especulação, mero conhecimento, capacidade, mexerico e assim por diante; e estes obstáculos impedem a simplicidade da vida. Um hábito, uma especialização confere esperteza à mente, um meio de focar o pensamento, mas não é o florescimento do pensamento-sentimento na realidade. A liberdade da distração é mais difícil já que não compreendemos completamente o processo de pensar-sentir que se tornou nele mesmo um meio de distração. Estando sempre incompleto, capaz de curiosidade especulativa e formulação, ele tem o poder de criar seus próprios obstáculos, ilusões, que impedem a vigilância do real. Assim ele se torna sua própria distração, seu próprio inimigo. Como a mente é capaz de criar ilusão, este poder deve ser compreendido antes de poder ficar totalmente livre das próprias distrações por ele criadas.



Pensamos que somos intelectuais

Muitos de nós desenvolveram capacidades intelectuais, as ditas capacidades intelectuais, que realmente não são capacidades intelectuais de fato; nós lemos muitos livros, cheios de coisas que outras pessoas disseram, suas muitas teorias e ideias. Consideramos que somos muito intelectuais se citamos inumeráveis livros de inumeráveis autores, se lemos muitas variedades de livros, e temos a capacidade de correlacionar e expor. Mas nenhum de nós, ou poucos de nós, têm concepção intelectual original. Tendo cultivado o assim chamado intelecto, toda outra capacidade, todo outro sentimento, foi perdido e temos o problema de como trazer um equilíbrio para nossas vidas de modo a ter não só a mais elevada capacidade intelectual e sermos capazes de raciocinar objetivamente, ver as coisas exatamente como elas são, não oferecer continuamente opiniões sobre teorias e códigos, mas pensar por nós mesmos, ver por nós mesmos muito proximamente o falso e o verdadeiro. E isto, me parece, é uma de nossas dificuldades: a incapacidade de ver, não só coisas externas, mas também a vida interna que a pessoa tem, se é que tem de fato.


Krishnamurti, J. Krishnamurti, The Book of Life (O livro da vida)

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